domingo, 28 de abril de 2019

Entendendo o draft do Titans


Na primeira edição do draft da NFL em Nashville, eu permito você fazer a brincadeira de que o Titans fez valer o seu mando de campo. Com uma multidão tomando conta das ruas da Cidade da Música, a franquia voltou a mostrar que sabe organizar uma grande festa e que também deseja fazer essa apaixonada torcida sonhar com algo a mais em 2019.

No início do recrutamento, o Titans tinha uma escolha em cada uma das seis primeiras rodadas, e foi assim que o time terminou o draft. Desde que chegou à franquia, o GM Jon Robinson mostrou que não tem medo de trocar diversos picks para adquirir o jogador que deseja. Em 2018, ele selecionou apenas quatro atletas. Dessa vez, ele foi mais conservador, realizando uma troca no Dia 3 apenas.

Por conta da falta de profundidade em algumas posições do elenco, eu esperava mais seleções, porém está cada vez mais claro que Robinson vê pouca diferença entre os UDFAs e quem ainda está disponível nas últimas rodadas. Ao realizar menos escolhas, ele ganha poder de barganha na hora de negociar com aqueles jovens que não escutaram o seu nome no final de semana.

Por conta de algumas escolhas duvidosas de outras equipes, a primeira rodada foi ficando muito boa para o Titans. A necessidade de melhorar o interior de ambas as linhas era clara, e quando entrou on the clock, Robinson tinha muitas opções. O GM acabou indo atrás de um dos personagens mais polêmicos da offseason, o DT Jeffery Simmons (Mississipi State).

Pouco antes de entrar para a universidade, Simmons se envolveu em uma briga de rua entre a sua família e alguns vizinhos rivais. Ao tentar ajudar a sua irmã, ele se descontrolou e agrediu com vários socos Sophia Taylor. Deitada no chão sem qualquer chance de defesa, ela acabou sofrendo lesões na cabeça e no pescoço.

“Não há nada que define o que eles fizeram com a minha família. Meu neto de 4 anos teve que assistir ele agredindo a sua mãe”, declarou Ellen Hairston, mãe de Sophia Taylor.

O indesculpável ato de violência foi filmado, o que levou Simmons, à época um dos principais jogadores do high school, a enfrentar uma campanha contra a sua presença em Mississipi State. O diretor atlético da faculdade decidiu ir contra a opinião pública e ofereceu uma segunda chance ao principal recruta da temporada, evidenciando um dos males do esporte universitário no país, a proteção a atletas promissores.

Todos os envolvidos na briga foram indiciados. Simmons se declarou culpado da acusação de agressão simples e recebeu uma multa de 400 dólares, que ele prontamente decidiu pagar o dobro do valor. Mesmo muito pressionada, Mississipi State voltou a confiar no jovem, liberando-o para jogar na sua primeira temporada, porém sem a participação da estreia do time.

Em seus três anos em Mississipi State, Simmons se tornou um líder dentro e fora de campo. Ele obteve notas altíssimas e por duas vezes foi premiado como um dos melhores estudantes-atletas da sua conferência, a renomada SEC. Ele também participou de todas as ações comunitárias promovidas pela faculdade, chegando a dar palestras no campus e em escolas da região, o que lhe rendeu mais um prêmio.

A presença de Simmons na NFL divide opiniões, e não há por que ser diferente, afinal, ao ser selecionado, ele acaba ocupando um espaço de um jovem que não cometeu nenhuma infração grave durante toda a sua vida. Ele recebeu uma segunda chance e fez tudo que alguém nessas situações precisa fazer, mas ainda estamos falando sobre o autor de uma agressão violenta.

Ser um estudante-atleta é muito diferente de integrar um elenco da NFL. Ao optar por contar com os serviços de Simmons, o Titans muda completamente a vida dele. Assim que assinar o seu contrato, ele vai ser mais um milionário atleta na liga. Dinheiro muitas vezes é sinônimo de liberdade, inclusive nos países mais democráticos do mundo.

Logo após realizar a sua escolha no draft, Jon Robinson e o head coach Mike Vrabel falaram com a imprensa. A maioria esmagadora das perguntas tratava do vídeo de Simmons agredindo sua vizinha. A dupla responsável por comandar o time não fugiu de nenhum questionamento. Afirmaram que nunca colocaram no vestiário uma pessoa “má”. Para eles, Simmons é um jovem que cometeu um erro gravíssimo, mas que desde então não mediu esforços para se tornar uma pessoa melhor.

No dia seguinte, Simmons foi apresentado aos setoristas do time. Ainda sobre o caso de violência na sua cidade natal, ele disse que sabe que errou e que vai ter que conviver a vida toda com o fato de que agrediu uma mulher. A proprietária do Titans, Amy Adams Strunk, também participou da coletiva. Questionada sobre a escolha, ela disse que foi consultada meses antes por Robinson e Vrabel.

“Não demorou para eu ver que esse era o caso de um jovem que se envolveu em um incidente no colégio. Todos nós podemos olhar para o passado e perceber que poderíamos termos feito outras coisas diferentes na nossa juventude. Você pode pedir desculpas e falar que vai ser um homem melhor. Ele fez mais do que isso. Ele se tornou um homem melhor, por isso foi confortável pra mim aceitar Simmons no Titans. É importante para o Jon e especialmente para o Mike a presença de apenas homens decentes no vestiário. E esse jovem é um homem bom”, declarou Adams.

O Titans começou o Dia 2 do draft com o pé direito. Ainda precisando de valiosas peças para o ataque, Robinson não pensou duas vezes na hora de escolher o WR A.J. Brown na segunda rodada. Menos conhecido do que o seu colega de Mississipi DK Metcalf, Brown jogou a maioria dos snaps no slot, mas com a lesão da estrela do time, ele passou a atuar outside e se saiu muito bem. Muitos olheiros consideram essa a grande escolha da franquia no draft. O histórico do Titans com picks na segunda rodada é terrível. Cabe a Brown mudar isso.

Na sua última escolha de sexta-feira, o Titans voltou a reforçar o ataque. Com a chegada de Nate Davis, o time vai adicionar muito músculo à posição de RG. Na pequena universidade de Charlotte, ele também chegou a jogar de RT, mas foi no interior da linha que o atleta de 141 kgs impressionou os olheiros no Senior Bowl. Ao contrário de Brown, Davis divide opiniões. Talvez o jovem não comece o ano como titular, mas como a concorrência não é das melhores, aposto que veremos ele bastante em campo.

O Titans fechou o draft com mais três reforços na defesa. Melhor jogador no board do time, o DB Amani Hooker foi escolhido após realizarmos uma troca com o NY Jets na quarta rodada. Safety em Iowa, ele mostrou capacidade para contribuir no slot, onde o time pode precisar de ajuda caso perca o veterano Logan Ryan no free agency de 2020.

Sentei para assistir o draft com a certeza de que a posição de EDGE era o grande alvo do time. Não foi assim até a quinta rodada, quando Robinson colocou um fim no calvário de D'Andre Walker. Cotado para sair bem antes, o OLB de Georgia precisou esperar a seleção de 167 atletas até ter a chance de comemorar a sua entrada na liga. Com muita mais velocidade do que técnica, ele vai ter que evoluir bastante até conseguir tirar alguns snaps dos veteranos.

Em uma fase em que os times buscam atletas que possam contribuir com o Special Teams, o Titans foi atrás de David Long Jr., ILB que tem tudo para contribuir na cobertura dos retornos.

Com Robinson no comando da war room não há draft comum para o Titans. Ele tem uma linha de trabalho clara na hora de definir quem são seus alvos. Em 2019, o nosso GM teve a sorte de precisar pegar pouco no telefone para adquiri-los. Vamos ver como as novas peças vão se encaixar no time. Agora é trabalho fica por conta dos técnicos.

Ainda me preocupa a rotação de EDGEs, composta por jovens jogadores que se lesionaram recentemente. No momento, a única posição que não preenchemos é a de NT, mas ela é a menos importante da defesa e temos quem possa fazer essa função no elenco.

O Titans ficou mais forte após o draft, mas a que custo? Simmons pode repetir Taylor Lewan e deixar o seu problema extracampo para trás, mas em caso de reincidência, por menor que seja o incidente, ele deve ser cortado. Se Robinson e Vrabel querem mesmo construir um vestiário com homens bons, eles devem primar pelo rigor, independentemente da importância do atleta.

TITAN UP

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